NORTISTA OU NORDESTINO?



Até o início do século XX, o território brasileiro era comumente compreendido a partir de uma divisão ampla entre Norte e Sul. Nesse contexto, as populações oriundas das atuais regiões Norte e Nordeste eram, de modo geral, designadas como “nortistas”. No entanto, a partir das primeiras décadas do século XX, esse quadro começa a se modificar, especialmente em função das recorrentes estiagens que atingiam parte significativa do território situado no semiárido. A mudança ocorre de forma mais sistemática a partir das décadas de 1910 e 1920, quando o Estado brasileiro passa a empregar o termo “Nordeste” em seus discursos institucionais, visando delimitar uma área específica do país mais vulnerável às secas. Esse processo esteve diretamente ligado à criação da Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS), em 1909, órgão responsável por identificar as áreas mais afetadas pelas estiagens e propor políticas públicas voltadas à mitigação de seus efeitos. A partir desse momento, o mapa do Brasil começa a ser redefinido segundo critérios mais precisos de regionalização, superando a antiga divisão genérica entre Norte e Sul.

Nesse novo arranjo territorial, o termo “nortista” passa a designar os indivíduos nascidos na região Norte, associada principalmente à Amazônia, enquanto a denominação “nordestino” passa a referir-se às populações da região Nordeste. Essa distinção não se resume a um simples ajuste terminológico, mas reflete um processo histórico, político e cultural vinculado à formação do Estado nacional brasileiro, à regionalização administrativa e à produção de representações sobre o território e suas populações. Até as primeiras décadas do século XX, províncias como Bahia, Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte eram compreendidas como parte do grande “Norte” do país, sobretudo quando observadas a partir do eixo político e econômico do Sudeste. A separação entre Norte e Nordeste consolida-se gradualmente, associando o Norte à região amazônica e o Nordeste a características climáticas, econômicas e sociais específicas, como a recorrência das secas, a crise da economia agroexportadora e a pobreza estrutural do sertão.

A criação da IFOCS — posteriormente transformada no Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) — constitui um marco fundamental nesse processo. A partir de então, o Nordeste passa a ser nomeado como uma “região-problema”, sobretudo em função da seca, o que contribuiu para a consolidação do termo “nordestino” como categoria administrativa, técnica e, posteriormente, identitária. Como analisa Durval Muniz de Albuquerque Júnior, o Nordeste não é apenas uma região natural, mas uma construção histórica e discursiva, forjada por intelectuais, políticos, jornalistas e instituições estatais ao longo do século XX. A partir das décadas de 1930 e 1940, com o avanço da industrialização no Sudeste e a intensificação dos fluxos migratórios internos, especialmente em direção ao Rio de Janeiro e a São Paulo, o termo “nordestino” se populariza no vocabulário urbano. Ele passa a designar os migrantes oriundos dessa região, substituindo gradualmente o termo “nortista”. 

Contudo, essa nomeação não se deu de forma neutra, pois, em muitos contextos, o termo “nordestino” foi carregado de estigmas sociais, associados à pobreza, ao trabalho braçal e à marginalização urbana. Dessa forma, a passagem de “nortista” para “nordestino” expressa uma transformação mais ampla, relacionada à reorganização territorial do Estado brasileiro, à produção de saberes regionais e à cristalização de identidades coletivas no interior das relações de poder. O termo “nordestino” surge, assim, simultaneamente como categoria administrativa, construção simbólica e identidade social, cuja historicidade é inseparável dos processos de desigualdade regional, migração e representação cultural no Brasil.

Aqui estão referências bibliográficas acadêmicas (livros, capítulos, artigos e dissertações) que tratam direta ou indiretamente da história da construção regional do Nordeste e da emergência dos termos “Nordeste” e “nordestino” — isto é, aquelas obras e estudos que explicam porque o Brasil passou de um vocabulário amplo como “norte/nortista” para o uso específico de “Nordeste/nordestino” no início do século XX em diante.

REFERENCIAS

BIBLIOGRÁFICAS

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2011.
ANDRADE, Manuel Correia de. A terra e o homem no Nordeste. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2005.
CASTRO, Josué de. Geografia da fome. 10. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
FREYRE, Gilberto. Nordeste: aspectos da influência da cana sobre a vida e a paisagem do Nordeste do Brasil. 7. ed. São Paulo: Global, 2004.
OLIVEIRA, Francisco de. Elegia para uma re(li)gião: Sudene, Nordeste, planejamento e conflito de classes. 6. ed. São Paulo: Boitempo, 2011.

ARTIGOS 

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. O objeto em fuga: algumas reflexões em torno do conceito de região. Revista Fronteiras, Dourados, v. 4, n. 7, p. 55–67, 2002.
HAESBAERT, Rogério. Região, diversidade territorial e globalização. Geographia, Niterói, v. 1, n. 1, p. 15–39, 1999.
LIMA, Nísia Trindade. Um sertão chamado Brasil: intelectuais e representação geográfica da identidade nacional. Dados – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v. 39, n. 3, p. 579–614, 1996.

PERIÓDICOS

SILVA, Antônio Carlos da. A construção discursiva do Nordeste brasileiro no início do século XX. 2010. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2010.
SOUZA, Maria Aparecida de. Nordeste: região, identidade e discurso. 2007. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2007.





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